Cinebiografia: Quando a ficção apanha de relho

Peço perdão pelo tempo que fiquei sem postar, o que, na realidade, é pedir perdão para o absolutamente nada. Ninguém lê este blog e eu lamento que a culpa disso tudo seja da minha síntese perfeita de “falta de tempo + preguiça”. Já assunto, não. Assunto não falta nunca.

Para voltar já tocando num assunto que muito me agrada, me refiro a esta matéria do Estadão que fala sobre a cinebiografia como um terreno fértil para o cinema nacional. Num momento em que já temos uma obra significativa de biografias bem escritas e minuciosamente documentais, o cinema vê como grande possibilidade a recontagem destas histórias de mitos e personagens históricos e da cultura nacional.

A matéria cita como exemplo o mais novo lançamento do gênero nos cinemas, que é o documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, que ainda não estreou em Porto Alegre, relembra outros longas populares, como Cazuza, Pelé Eterno, Dois Filhos de Francisco, e anuncia a atual fase de finalização da cinebiografia de Lula, produzida por Bruno Barreto.

Confesso. Acho o máximo as biografias dramatizadas em cinema, teatro e tevê. Elas têm um glamour que a vida real não tem. Já havia falado sobre isso aqui quando comentei da minissérie Maysa, da Globo. Há o enquadramento para captar o olhar mais perfeito, há um ensaio para que se profira a fala mais certa, ou seja, é um pouco da idealização que criamos a respeito dos personagens da vida real.

Concordo plenamente com a matéria quando ela diz que a não-ficção está dando de relho na ficção, mas nada substitui os livros-biografia (a matéria não disse isso, eu que tô dizendo). A complexidade da narrativa permite, sim, que se descreva detalhadamente uma personagem em muitos aspectos sem que se crie um personagem idealizado, pelo contrário. Humano, e é aí que está a sua maior beleza.

O fim da palhaçada das concessões?

Foi no Comunique-se que eu fiquei sabendo a respeito da notícia. Diz o seguinte:

Um parecer do senador Pedro Simon (PMDB-RS) pode tornar inviável a renovação de concessões de rádios e TVs cujos proprietários sejam parlamentares. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou na última terça-feira (07/04) o parecer, que vai a plenário e já começa a provocar polêmica, visto que são quase 50 deputados e mais de 20 senadores com vínculo com veículos de Comunicação.

O que pretende o parecer de Pedro Simon, em suma: não renovar as concessões de rádio e tv a parlamentares, sejam eles proprietários, dirigentes ou etcétera. É o que diz a Contituição Brasileira em seu artigo 54:

Os Deputados e Senadores não poderão, desde a posse, ser proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada;

Naturalmente a ideia não foi bem recebida, já que boa parte dos congressistas concilia a posição (inconstitucional) de exercer função parlamentar e ter empresas de comunicação em seu nome. A matéria cita opiniões de senadores como Antonio Carlos Magalhães Júnior (proprietário da TV Bahia há mais de 20 anos), que achou a proposta “um absurdo” e “uma interpretação da Constituição totalmente equivocada”.

Na prática, não é proibida hoje a propriedade de emissoras na mão de congressistas. O STF apenas não permite que parlamentares sejam diretores de empresas de rádio e tv. O que Simon fez foi uma leitura fiel à Constituição, e isso nos dá uma base do quão complicado é levar a discussão adiante, já que, segundo a Constituição, “a não renovação da concessão ou permissão dependerá de aprovação de, no mínimo, dois quintos do Congresso Nacional, em votação nominal.” No Estadão conta que apenas quatro senadores estavam presentes na sessão na qual o parecer foi aprovado. Ou seja, todo esse alarde não fez nem cócegas nos donos de emissoras.

Ele perdura.

Estou satisfeita por meu post anterior sobre o dia do jornalista ter sido lido por uma quantidade (para mim) significativa de pessoas. As pessoas – respondendo à minha dúvida de ontem – realmente buscaram o significado da data supostamente comemorada em 7 de abril (supostamente porque eu não estou comemorando e muitos outros também não têm o que comemorar). Espero que, assim como eu, estes leitores ainda estejam buscando o significado real desta profissão pela qual sou ainda mais confusa do que a habitual confusão de sempre.

Feliz Dia do Jornalista?

Eu sequer lembrava que comemoram o Dia do Jornalista no dia 7 de abril, portanto, hoje. Vejo colegas se entreparabenizando e me vejo na contramão. Alguma dessas pessoas sabe por que 7 de abril simboliza o dia dos profissionais de jornalismo? Alguma procurou saber?

Me dignei a saber, porque vergonha é fingir que sabe. Pois bem, tudo começou no século 19. Por causa de um italiano. Chamava-se Giovanni Baptista, mas seu nome foi traduzido ao tupiniquim e ele se tornou João Batista Líbero Badaró. Sua chegada ao Brasil foi em 1826, quando ele era um jovem mais ou menos da minha idade. Líbero Badaró simpatizou com o pensamento liberal, nacionalista e anti-totalitário. Foi político, médico e jornalista.

Em 1829, foi fundado por ele o Observador Constitucional, jornal em que expressava suas ideias liberais e também críticas ao autoritarismo do reinado de Pedro I.  A grande herança de Líbero Badaró foi justamente a luta pela liberdade de expressão. Luta que, se formos analisar pelos fatos, foi interrompida de maneira covarde.

No dia 20 de novembro de 1830, a liberdade de expressão de João Batista Líbero Badaró calou-se. Um atentado à bala atingiu o jornalista, que morreu um dia depois. Conforme alguns historiadores, a ordem para o assassinato teria partido do imperador Pedro I, o grande interessado em dar fim à propagação livre de ideias.

Estava morto Badaró. Pior para o imperador. Vou citar uma fala que vi no filme Viva Zapata!: “Às vezes, um inimigo morto pode ser pior do que um inimigo vivo”. E assim o jornalista conseguiu que as transformações viessem. As manifestações contra o absolutismo continuaram, até que, em 7 de abril de 1831, D. Pedro I abdica ao trono, dando início àquele governo provisório que culminará com a precoce transformação de Pedro II em novo imperador. Mas aí já é outra história.

Essa fala toda era pra dizer que não vejo o que temos para comemorar. O jornalismo que eu queria, que eu sonhei, eu vejo morrer à míngua, e não consigo ver o que eu posso fazer para impedir que isso aconteça. Não acho que é uma questão de ter as mãos atadas. Estou e estamos, muitos de nós, inertes.

Quando penso em mim, no caminho que trilhei, me avalio de uma maneira talvez dura, mas sincera. Sou, sim, uma Bacharel em Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo. Tenho o canudo aqui na gaveta para provar que sou de fato. Se sou jornalista? Não sei. Não me sinto jornalista. Já trabalhei em jornadas violentas. Já me doei completamente. Já apliquei todas as energias que eu tinha de forma a não restar forças para mais nada. Já me calei. Me submeti. Não culpo o trabalho. Sou responsável pelas minhas decisões e indecisões.

Não quero saber de felicitações. Quero saber como viver quando simplesmente não nos conformamos com as coisas como elas estão.

João Gilberto

Recomendado pelo Digestivo Cultural. Curti paca!

Anotações para uma aula subversiva – Parte II

ANOTAÇÃO IV – Na atualidade, sem as intimidações diretas e indiretas dos agentes da ditadura; com a consolidação das assessorias de imprensa e a formação controlada dos cursinhos de “comunicologia”; além, é claro, dos respectivos cursos em que as empresas selecionam “focas” para adestramento, eficiente instrumento de recrutamento dos confiáveis ideologicamente, a produção de imagens está no centro da imposição de bens simbólicos, reacionários e criminalizadores. O diploma não está ameaçado. Bem ao contrário, o fortalecimento da obrigatoriedade significa o fortalecimento do showrnalismo. Da prática da perfumaria. Os interesses estão sincronizados.

ANOTAÇÃO V – No cotidiano, relações de alta complexidade e competitividade consolidam uma cadeia de conivências. As imagens fotográficas, produzidas a partir do “olhar isento” das assessorias ”complementam” matérias produzidas a partir de informações de press releases, tituladas por editores, todos de confiança e treinados na introjeção dos interesses das respectivas unidades de produção da indústria pesada da comunicação de massa, para a qual todos vendem suas forças  “criativas” de trabalho. Nada críticas. E showtógrafos, quando pautados, são instrumentos conscientes da “hipocrisia fotográfica”.  Ou ainda: abatidos e apáticos, produzem o material já dentro das normas. O editor “filtra os delizes” em último caso. O modelo ideal de profissional, já revelado abertamente pela “Folha de São Paulo”, é o denominado jornalista multimídia. Confiável ideologicamente, capaz de alimentar todos os suportes (jornal, rádio, tv, internet), domínio de todos os instrumentos tecnológicos de comunicação, falando no mínimo uma ou duas línguas estrangeiras, limpos e assépticos. Produtores, em verdade, de secos e molhados. O Rodrigo Lopes, de Zerolândia, é um “vencedor”. É cada vez menor o lugar para gente tosca. Os subversivos já foram eliminados; alguns poucos sobrevivem nas redações por um descuido qualquer do sistema. Estão clandestinos. E, com razão, amedrontados. JORNALISMO é subversão.

ANOTAÇÃO VI – Repetitivamente não posso deixar de assinalar que temos a exata noção do o quanto é complexa toda esta questão. Assim como, mais uma vez, registramos que não temos a pretensão – e muito menos ainda a arrogância – de acharmos que temos toda a verdade. Reivindicamos, apenas, uma parte dela. Este não é um suporte (internet/blog) muito adequado a um longo texto. Ainda mais com fundo preto e letras vermelhas [do layout original do blog Ponto de Vista]. Temos, por isso mesmo, a noção de que muitas palavras, idéias e raciocínios estão aqui “jogados”  a partir de pressupostos. Conceitos possuem uma história, uma determinada trajetória de incorporação de outros conceitos.

ANOTAÇÃO VII – Ainda assim, a partir de todas estas considerações, precisamos assinalar que como jornalista (da velha geração) e professor temos o péssimo hábito de pensar. Arriscamos. Esta prática fica sempre associada a uma determinada forma, a de pensar criticamente. É evidente que – e não poderia ser de outra forma – muitas de nossas avaliações poderão estar equivocadas. Mas são resultantes deste pensar criticamente, de forma absolutamente honesta. Nenhuma de nossas considerações estão orientadas pela ganância, inveja ou por algum tipo de ressentimento de caráter pessoal. Sou um privilegiado. Não estou submetido à tortura que deve ser (para quem tem caráter) vender a força de trabalho à mídia corporativa. A selva capitalista conta com a necessidade de sobrevivência de todos nós. Por um descuido do sistema ingressei na academia. E tenho diante de mim jovens e, para alguns deles, em número cada vez menor com o passar dos anos, ainda faz sentido o que digo em sala de aula. A estes tenho doado minha alma. Com modéstia estou construindo uma história como educador. Os cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado), formadores dos professores que, por sua vez, irão formar os futuros jornalistas pertecem a esta esfera de conivências. Não por acaso, com raríssimas excessões, os alunos que ingressam são aqueles dos quais não tive uma boa impressão na graduação. Quase sempre legimatores de professores especializados no adestramento da covardia. O ensino do nosso país é uma tragédia.

Do blog Ponto de Vista, do professor Wladymir Ungaretti, cujo conteúdo foi censurado injustamente. Importante que se saiba que continua crescendo o número de pessoas questionando esta decisão judicial. Esta discussão deve continuar pelo benefício da nossa liberdade de opinar e pelo trabalho que o professor Ungaretti tem feito – dentro e fora das salas de aula – no curso de Jornalismo da Fabico, onde me formei. Esta é uma demonstração pequena mas sincera do meu apoio, meu respeito, carinho, admiração e profunda gratidão.

Anotações para uma aula subversiva

ANOTAÇÃO I – Na produção de imagens fotográficas não existe um “olhar isento”. Nem tão pouco uma “edição igualmente isenta”. Pensadores, com elevado grau de sofisticação intelectual, já escreveram sobre o tema. Lembro de textos de Vilém Flusser, Adorno e Walter Benjamin. Ainda assim, nunca é demais (re)afirmarmos que existe uma disputa ideológica na produção e respectiva utilização das imagens. Uma imagem sugere uma  determinada  subjetividade. Fotógrafos produzem, conscientemente ou não, estas subjetividades. Bens simbólicos.

ANOTAÇÃO II – Não por uma simples e inexplicável vontade do Divino Espírito Santo que, em plena ditadura, o curso de jornalismo foi desvinculado da área de ciências sociais (no caso da UFRGS) e sua estrutura física deslocada para o campus da saúde. Para o mais absoluto isolamento e onde permanece até os dias atuais. Agora, bem ao lado da Escola Técnica. E, quase que na mesma ocasião, os militares criaram as faculdades de “comunicologia” e a habilitação em RP (relações públicas). Medida assinada pelos ministros Jarbas Passarinho e Delfim Neto.

ANOTAÇÃO III – Nos tempos atuais, ao examinarmos todo o material fotográfico de uma edição de Zerolândia, por exemplo, constatamos que cerca de 95%, em média, de todas as fotos publicadas são originárias das assessorias de imprensa e das agências. Creditadas como foto/divulgação. Não se trata apenas de uma questão de redução dos custos operacionais. É uma necessidade “empresarial” de controle político e ideológico. No passado, velhos e combativos fotógrafos realizavam seus registros a partir de um “determinado olhar”, assim como a maioria dos repórteres escreviam, também, a partir de um determinado enfoque. Um quadro geral que acabou determinando, por parte da ditadura, um descarado incentivo às atividades das assessorias de relações públicas. É desse período o aparecimento dos “jornalistas” com duplo emprego. Prática não mais necessária, nos tempos atuais, pela disponibilidade de profissionais, além da necessidade da manutenção da imagem de isenção. Segue a babaquice da discussão da obrigatoriedade do diploma. Os bons fotógrafos(as), diplomados, estão quase todos desempregados.

Do blog Ponto de Vista, do professor e amigo Wladymir Ungaretti.

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Cláudia Flores, 25 anos, de Porto Alegre. Procurando saber o que tudo isso significa.

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