Gente bronzeada, mostre seu valor

Tá branquinho, passa Dove

Em razão do meu recesso bloguístico (em razão do período olímpico), fico mais dormindo e trabalhando do que vivendo propriamente. Nesse período, vou ao senhor tuíter para ler coisas interessantes e curtas, que é o que a minha mente agüenta. E também escrevo alguma bobagem ali, enquanto respiro.

O mais lamentável de trabalhar nas olimpíadas é que o Brasil só ganhou quatro bronzes e o primeiro e segundo lugares na classificação são de China e Estados Unidos, ou seja, valendo a medalha de maior potência mundial. Não é querer fugir do famoso espírito olímpico, mas é só olhar as performances dos caras nas principais modalidades pra ver que não tem como competir com eles mesmo. Enfim, uma atmosfera bronzeada, como só nós bronzileiros sabemos ser.

Então já sabem: se apertar, taca-lhe um bronzeador e era isso.

* * *

Acabo de acordar após conseguir dormir 20 horas seguidas. Que recorde olímpico que nada. Phelps, essa tu não consegue sem dópin, meu filho.

Domingão com $ílvio $antos

-  Quem quer dinheiroooo!

E quem não quer mesmo? $enor Abravanel tem mostrado que, apesar do Pantanal, não está tão $enil assim. A prova é que começou a reprisar um de seus programas de maior sucesso do $BT, o Topa Tudo por Dinheiro, aquele da musiquinha ritmo de festa que balança o coração, em que o homem do Baú usava o bordão acima, jogando aviõezinhos com notas de cem e cinqüenta reais. Ainda hoje, as colegas de trabalho se rasgam para apanhar algum pila por ali, e o programa ainda tem a mesma graça de sempre.

O melhor é que, mais tosco do que nunca, o SBT não se importa em reprisar programas antiquíssimos, mesclando as câmeras escondidas do Ivo Holanda com uma gincana idêntica às antigas Olimpíadas do Faustão. E, para dar um “improve” à audiência, $ílvio $antos ainda reprisa cenas dignas de ”clássicos do youtube”, como esta, em 1989, em que ele tenta montar um burrinho rebelde. Assiste aí:

Em uma outra ocasião, contarei sobre o dia em que conheci pessoalmente $$, e seu fiel escudeiro Lombardi. Não percam.

Os confusos, os sem-fusos e o badminton

um tênis com... peteca

Badminton: um tênis com... peteca

Estou completamente perdida desde que voltei a trabalhar durante as madrugadas, em razão da Olimpíada de Pequim. Cada dia eu chego num horário, no primeiro dia foi às 21h, no dia seguinte fui às 23h, ontem entrei 1h da manhã e amanhã vou às 10h da matina. Por mais que durma, meu pobre organismo não se conforma em não ter horário certo para absolutamente nada. Preciso me orientar pelo fuso de Pequim, para estar alerta quando a minha querida colega Jana enviar o nosso material exclusivo direto da China. Mas o que mais acontece é eu me desorientar. Não consigo nem calcular direito o tal do fuso chinês!

Se, lá pelas tantas, preciso dormir mas estou sem vontade, lá vou eu a tentar convencê-lo, “organismo querido, vamos dormir porque preciso acordar daqui a exatas quatro horas”. Só que nem sempre ele aceita. Quando o sono bate e realmente durmo, ao acordar desconheço qualquer coisa. Que horas são? Onde estou? Quem sou eu? Essas são as perguntas comuns que faço quando parece que uma jamanta passou por cima de mim.

Pois lhes digo que nesta manhã de dia dos pais eu me recolhi para a cama por volta das dez da manhã, desabando sobre as cobertas. Caí dura. Durante a noite, não faltaram competições e mais competições, uma hora era basquete, noutra futebol, noutra badminton (e eu nem sabia o que era badminton!), noutra esgrima, mergulho, ginástica, e eu naquela overdose de modalidades e mais modalidades, até hóquei olímpico existe, pelamordedeus, de onde surgiu tanta modalidade assim?

Enfim, lá estava eu a dormir, dormindo o sono dos justos e talecoisa. Mas lembro que, em um certo momento, minha irmã entrou no meu quarto e falou alguma coisa. Eu até respondi para ela, mas não lembrava muito bem o quê. Pois ela fez questão não só de me contar, mas de contar para toda a família, pais, avôs, tias e primas, qual o diálogo que sucedeu enquanto eu semi-dormia. Segundo ela, foi assim:

- Cláudia, onde foi que tu colocou a chave do carro?
- Os atletas pegaram.

Ou seja, até dormindo estou ligada nos jogos olímpicos… O que será de mim até o fim do mês?

Mulher tamanho G - episódio três

Musa de Botero

Musa de Botero

Ziguezagueava pela loja de roupas catando modelos nem tão justos, nem tão largos. Nem mulher fatal, nem maria-mijona. À procura do equilíbrio.

- Qual o tamanho que tu precisa, moça?
- Pode ser G.

Pode ser uma ova. ERA G. Pegava a pilha de cabides e a plaquinha número doze, e se dirigia para o provador.

Nunca houve objeto mais cruel no universo do que o espelho de um provador de roupa. Quase sempre são dois, de maneira a refletir também a mulher de costas, e mostram de-ta-lho-sa-men-te tin-tin-por-tin-tin cada imperfeição, cada celulite, cada pneu fora do lugar. Naquele momento, o espelho refletiria a mais horrenda das imagens, a mais branca, corpulenta e flácida das imagens. Imensa mulher. Imensa bunda.

Sai da cabine bufando com as doze peças de roupa amassadas. Larga a montanha no colo da atendente. Nenhuma, nenhumazinha das doze peças lhe serviu.

- Vai levar alguma, moça?
- NÃO!!! NÃO VOU LEVAR NADA!!!

E sai correndo do shopping. Não há nada que possa estragar mais o dia de uma mulher do que um singelo provador de roupa.

De volta para a boca da noite

Ele não sabia, mas eu chegava na aula virada. Não dormia, e não era vagabundagem. Vinha do trabalho. Saía por volta das seis da manhã, chegava em casa, tomava uma xícara de café preto bem forte, e ia tomar o ônibus para a aula. Chegava na Fabico lá pelas sete, não tinha uma viva alma por ali. Eu ia direto para o segundo andar, entrava na sala de aula improvisada, e ele estava ali. Muito raro ele não chegar primeiro.

Trazia uma maleta cheia de livros, quase mais peso do que era aconselhável carregar. Ele sofrera um acidente de moto uma vez, e ficara com uma seqüela num braço. Não conseguia estendê-lo completamente, mas não abria mão dos calhamaços de livros. Eu tinha a maior admiração do mundo por ele. Ainda tenho.

Eu chegava ali, sem dormir, pronta para uma manhã inerte. Pronta para ficar muda. Pronta para apenas deixar a carcaça funcionar e desligar meu cérebro de tudo. Do mundo. Eu passava as madrugadas inteiras operando como uma peça de engrenagem. Por que ali havia de ser diferente?

Mas havia ele. E eu era a primeira da turma a chegar, mas aquilo me envergonhava, porque eu não era uma aluna competente. Aplicada. De talento. Eu era igual ou pior que os demais. Descrente. Apática. Eu não iria me sobressair ali, mas isso não fazia diferença para ele. Ele me recebia com sorrisos às sete e quinze da manhã e dizia “vem aqui que eu quero te mostrar uma coisa”. E espalhava páginas de jornal em cima da mesa, livros, e falava e gesticulava e defendia seus pontos de vista como a coisa mais fundamental do mundo. Como se não houvesse aquele desânimo a pairar sobre todos e inclusive sobre ele. Só que a gente se rendia, e ele não. Ele nunca. Ficava a brigar sozinho por aquilo que não conseguia nos persuadir.

Eu não consigo expressar o quão feliz eu me sentia ao sentar ali e ficar ouvindo aquelas coisas. Aqueles papos, aquelas queixas que ele tinha do mundo e de nós. Eu seria capaz de ficar por horas ouvindo, anotando, viajando naquelas suas histórias. Por vezes, dava vontade de ir atrás do velho e perguntar se poderia segui-lo. Se poderia ele me ensinar a ser como ele. Mas acho que eu não era e, triste, me conformei.

Enfim, estou pronta para voltar para a boca da noite. Para perder de vista a luz do sol. Para esquecer por mais umas noites que o dia existe. Mas, na saída, não poderei voltar à sala de aula e ouvi-lo mais um pouco. Terei que adentrar outra sala, e admirar o silêncio.

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Cláudia Flores, 24 anos, jornalista, Porto Alegre. Uma guria quase igual às outras, mas nem tanto.

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