Dia desses, num ônibus em São Paulo, eu pensei (como tantas vezes) no fato de eu estar em São Paulo, sobre a cidade em si e sobre aquela ideia de metrópole gigantesca. A propósito odeio a palavra megalópole. Metrópole é tão mais bonito, tá certo, não são sinônimos, mas ao dizer megalópole não parece que estou dizendo “me galope”? Péssimo.
Pois bem. O fato é que eu estava no ônibus me sentindo no tabuleiro do Banco Imobiliário, passando na Rebouças, Brigadeiro, Paulista, Augusta, Jardins. E pensando no quanto era bom na época do Banco Imobiliário, afinal eu tinha dinheiro e propriedades. Sorte ou revés? Pague o aluguel. Agora, do Banco Imobiliário, eu só pago o aluguel.
… de quando ela tinha esse tamanhinho. Foi por essa cara que eu me derreti, e hoje, cinco meses depois, já paguei todos os meus pecados e os que sequer pequei. Mas eu faria tudo de novo, por mim e por ela.
Eu sabia que estava procurando sarna para me coçar, com o perdão deste infame trocadilho. Mas eu queria muito ter um cão só meu, que eu cuidasse, brincasse com ele, limpasse toda a sujeira que ele fizesse, etcétera e tal. Então, na última segunda-feira, fui buscar a Lola. Eu já tinha planejado que ela se chamaria assim, comprei uma mantinha para ela ficar bem quentinha, e fui buscá-la no criador.
Lola, filhotinha de labrador com menos de dois meses de vida, chegou aqui em casa fazendo uma legítima inspeção geral. Cheirava tudo e marcava cada pedacinho com xixi. Aliás, ela é uma maquininha de mijar, já perdi as contas, mas já devo ter limpado muitas dezenas de xixis dela. Ela se agacha e chuá, deixa tudo molhadinho, e pra finalizar o serviço, pisa em cima e sai carimbando a casa com as patinhas gordinhas.
Primeira noite
Tudo bem, fiz uma caminha para ela no meu quarto. Brincou, brincou, brincou. Dormiu com facilidade, como um bebê mesmo. Só que acordou trocentas vezes. Pra mijar. E mijou meu quarto inteiro.
Segunda noite
Mudei a tática. Quartinho na área, forrado com jornais, água à vontade, quase um mini-hotel pra ela. Descobri nesse dia outra coisa: meudeus, filhotinhos são famintos! E adoram morder a gente. E quanto cocô eles fazem! Socorro! Cheguei a sonhar com cocô nas poucas horas que dormi. Lola chorou à uma da manhã. Fui lá e limpei sua sujeira. Dormiu. Chorou às quatro. Fui lá, limpei sua outra sujeira. Só que, dessa vez, não dormiu. E berrou, berrou como a cã mais injustiçada do mundo, acordando a casa toda.
Terceira noite
Já li algumas coisas sobre psicologia canina. Procurei aplicá-las com a Lola, para tentar regular sua fome, sono e comportamento. Os bebês cães são miúdos, mas espertinhos. Lola sabe mais ou menos sentar, mais ou menos fazer xixi e cocô nos lugares certos, e mais ou menos o que significa a palavrinha “não”. Comprei alguns produtinhos para ela e para a casa nos últimos dias: bola de borracha, panos, palitinhos de roer, sacos de lixo gigantes. Haja jornal aqui em casa, aceito quem quiser me doar jornais velhos; será que a RBS cede seu encalhe para a Lola?
Hoje Lola completou dois meses hoje. Já foi ao veterinário, já ganhou colinho, já fez sua algazarra do dia. Agora ela está dormindo e eu aqui, descansando um pouco. Cansada, mas feliz, que nem ela.
Me, myself and I
Cláudia Flores, 26 anos, jornalista de Porto Alegre perdida em São Paulo. Procurando saber o que tudo isso significa.