Textos categorizados 'crises'

Sorte ou revés? Tire uma carta

Dia desses, num ônibus em São Paulo, eu pensei (como tantas vezes) no fato de eu estar em São Paulo, sobre a cidade em si e sobre aquela ideia de metrópole gigantesca. A propósito odeio a palavra megalópole. Metrópole é tão mais bonito, tá certo, não são sinônimos, mas ao dizer megalópole não parece que estou dizendo “me galope”? Péssimo.

Pois bem. O fato é que eu estava no ônibus me sentindo no tabuleiro do Banco Imobiliário, passando na Rebouças, Brigadeiro, Paulista, Augusta, Jardins. E pensando no quanto era bom na época do Banco Imobiliário, afinal eu tinha dinheiro e propriedades. Sorte ou revés? Pague o aluguel. Agora, do Banco Imobiliário, eu só pago o aluguel.

Mulher tamanho G – episódio três

Musa de Botero

Musa de Botero

Ziguezagueava pela loja de roupas catando modelos nem tão justos, nem tão largos. Nem mulher fatal, nem maria-mijona. À procura do equilíbrio.

- Qual o tamanho que tu precisa, moça?
- Pode ser G.

Pode ser uma ova. ERA G. Pegava a pilha de cabides e a plaquinha número doze, e se dirigia para o provador.

Nunca houve objeto mais cruel no universo do que o espelho de um provador de roupa. Quase sempre são dois, de maneira a refletir também a mulher de costas, e mostram de-ta-lho-sa-men-te tin-tin-por-tin-tin cada imperfeição, cada celulite, cada pneu fora do lugar. Naquele momento, o espelho refletiria a mais horrenda das imagens, a mais branca, corpulenta e flácida das imagens. Imensa mulher. Imensa bunda.

Sai da cabine bufando com as doze peças de roupa amassadas. Larga a montanha no colo da atendente. Nenhuma, nenhumazinha das doze peças lhe serviu.

- Vai levar alguma, moça?
- NÃO!!! NÃO VOU LEVAR NADA!!!

E sai correndo do shopping. Não há nada que possa estragar mais o dia de uma mulher do que um singelo provador de roupa.

De volta para a boca da noite

Ele não sabia, mas eu chegava na aula virada. Não dormia, e não era vagabundagem. Vinha do trabalho. Saía por volta das seis da manhã, chegava em casa, tomava uma xícara de café preto bem forte, e ia tomar o ônibus para a aula. Chegava na Fabico lá pelas sete, não tinha uma viva alma por ali. Eu ia direto para o segundo andar, entrava na sala de aula improvisada, e ele estava ali. Muito raro ele não chegar primeiro.

Trazia uma maleta cheia de livros, quase mais peso do que era aconselhável carregar. Ele sofrera um acidente de moto uma vez, e ficara com uma seqüela num braço. Não conseguia estendê-lo completamente, mas não abria mão dos calhamaços de livros. Eu tinha a maior admiração do mundo por ele. Ainda tenho.

Eu chegava ali, sem dormir, pronta para uma manhã inerte. Pronta para ficar muda. Pronta para apenas deixar a carcaça funcionar e desligar meu cérebro de tudo. Do mundo. Eu passava as madrugadas inteiras operando como uma peça de engrenagem. Por que ali havia de ser diferente?

Mas havia ele. E eu era a primeira da turma a chegar, mas aquilo me envergonhava, porque eu não era uma aluna competente. Aplicada. De talento. Eu era igual ou pior que os demais. Descrente. Apática. Eu não iria me sobressair ali, mas isso não fazia diferença para ele. Ele me recebia com sorrisos às sete e quinze da manhã e dizia “vem aqui que eu quero te mostrar uma coisa”. E espalhava páginas de jornal em cima da mesa, livros, e falava e gesticulava e defendia seus pontos de vista como a coisa mais fundamental do mundo. Como se não houvesse aquele desânimo a pairar sobre todos e inclusive sobre ele. Só que a gente se rendia, e ele não. Ele nunca. Ficava a brigar sozinho por aquilo que não conseguia nos persuadir.

Eu não consigo expressar o quão feliz eu me sentia ao sentar ali e ficar ouvindo aquelas coisas. Aqueles papos, aquelas queixas que ele tinha do mundo e de nós. Eu seria capaz de ficar por horas ouvindo, anotando, viajando naquelas suas histórias. Por vezes, dava vontade de ir atrás do velho e perguntar se poderia segui-lo. Se poderia ele me ensinar a ser como ele. Mas acho que eu não era e, triste, me conformei.

Enfim, estou pronta para voltar para a boca da noite. Para perder de vista a luz do sol. Para esquecer por mais umas noites que o dia existe. Mas, na saída, não poderei voltar à sala de aula e ouvi-lo mais um pouco. Terei que adentrar outra sala, e admirar o silêncio.

Mulher tamanho G – episódio dois

Musa de Botero

Musa de Botero

- Ahh, mas como tá bonita! Bem gorda! – disse a velha tia de mais de sessenta anos.

Não. Não se trata se uma ironia velada, nem de uma contradição absurda. Para a velha tia de mais de sessenta anos, a gordura era sinônimo de beleza. E de saúde. Diz a minha vó que mulher bonita era Martha Rocha, a que perdeu o Miss Universo por ter duas polegadas a mais de quadris. Tinha ancas, a Martha Rocha. Será que foi por essa exuberância toda que ela virou nome de uma torta recheada, coberta com fios de ovos?

A velha tia de mais de sessenta anos adora dar um tapinha nas costas. Acho que é para ouvir o estalo que dá o tapa contra as costas gordinhas.

- Oi, vô.
- Oi. Tá bonita, hoje.
- Obrigada, vô.

Toda vez que o vô diz “tá bonita”, é sinal de que é hora de começar uma dieta. Se a neta chega magra, ele diz:

- Tem que engordar mais um pouco.
- Mas, vô! Eu tenho é que emagrecer!
- Não. Tem que ganhar mais um, dois quilos.

O bom de ter família é que não precisamos nos preocupar com a balança. A família sempre nos diz a verdade.

- Não gostou da comida? Comeu tão pouco…
- Mas, vó! Eu repeti duas vezes a comida!
- Hum. Nem vi tu comer.
- Vó, eu não posso ficar comendo essas coisas. Eu tô gorda.
- Tu não tá gorda, nada. Tu é forte.
- Ai, vó…

Legal também é quando chega o aniversário. Vejamos o saldo:
- Se ganhou livros, DVDs ou edredon: gorda
- Se ganhou uma roupa tamanho GG, XL ou extra-grande: gorda
- Se ganhou uma roupa P ou M e não serviu: gorda
- Se ganhou um abrigo ou roupas de ginástica: gorda
- Uma esteira elétrica: gorda
- Um tênis para caminhada: gorda

É… chega um dia que não são só as roupas que não servem mais. As desculpas também não.

Mulher tamanho G – episódio um

Musa de Botero

Musa de Botero

Acorda com o despertador. Dorme de novo. Acorda com o rádio-relógio. Desliga com o pé e dorme de novo. Mãe abre a porta e chama. Diz “arrã, já vou”, e volta a dormir.

Acorda, do nada, 30 minutos depois: putamerda! Tô atrasada!

Estende a mão sobre a poltrona e pega a calça, ainda semidormindo. A mesma calça de ontem, tsc, tsc, que feio. Mas vai aquela mesma, é a única não-amassada em com “stretch”. Estica.

Blusas, blusas, blusas. Não tem blusas. Agacha-se e fica por um longo minuto a olhar a prateleira das blusas. Nada que preste. Só blusas de verão, e já não é mais verão há meses. Mas que droga, nunca dá tempo de comprar roupas novas. E dinheiro? E essa futilidade agora?

Pega uma camiseta de mangas curtas. Justa demais. Há quantos anos essa camiseta existe? Sabe-se lá, séculos. E ainda é cinza. Sobra um terço de barriga para fora. Putaquepariu! Nada serve!

Olha, olha, reolha prateleiras. Atrasada. Com sono. Inútil. Sem ter o que vestir. Uma roupa xexelenta e justa. A mesma calça de ontem. E uma luz fosforescente piscando, lá no espelho, escrito: GORDA. IMENSA. CLAUSTROFÓBICA DE TÃO GORDA.

Era o apocalipse.

Da necessidade de escrever

Escrevo desde os quatro anos, quando fui alfabetizada pela minha mãe. Desde então, sigo em uma estrada de amor e ódio com a própria escrita. Mas por quê?

Posso dizer hoje, vinte anos depois que comecei, que a minha relação com a escrita é conflutuosa porque não escrevo por hobby, nem por amor ou tampouco por achar que o que escrevo seja bom. Escrevo apenas por necessidade.

Necessidade um: ganhar dinheiro. Depois de algum tempo gastando meus punhos com escutas radiofônias e Control Cês e Control Vês, finalmente estou trabalhando com redação propriamente dita.

Necessidade dois: preciso me expressar através da escrita. Preciso escrever para me lembrar das coisas, do passado, dos pensamentos, das idéias, dos sonhos.

Abro as gavetas abarrotadas de papéis com anotações e microanotações, abro arquivos de computador com diversos escritos - terminados e não-terminados - abro meus rascunhos pseudoliterários nas caixas de e-mail, abro minhas caixas de cartas recebidas e não-enviadas, meus diários de adolescência e tudo isso me enlouquece às vezes. Um caos de pensamentos de outros momentos da minha vida, coisas que quero e coisas que não quero lembrar, coisas que eu penso que são da melhor e da pior qualidade, coisas que me seduzem a recolhê-las e a rasgá-las e a queimá-las para sempre. Cadernetas. Sabem quantas cadernetas eu tenho com escritos? Na verdade, não faço a menor idéia de quantas são. Mas são muitas. E muitos cadernos. E quando posso, compro mais cadernetas. Tenho um vício em cadernetas.

Estás a pensar: não é muita tempestade para um copo d’água? Mas não é. É um problema. Achar no meio de tanta coisa escrita algo que possua algum valor para alguém. Um poema, uma crônica que seduza algum leitor. Algo que possa acrescentar qualquer coisa entre a montanha de informações sem valor que circula pela internet e pelo mundo inteiro.

O que não me deixa parar: existe muita coisa dentro de mim que precisa sair. Meus fantasmas, meus monstros, minhas fadinhas, minhas ilhas de Lost, meus podres, todos. Como posso viver sem essas linhas que escrevo?


Me, myself and I

Cláudia Flores, 26 anos, jornalista de Porto Alegre perdida em São Paulo. Procurando saber o que tudo isso significa.

@claudiaflores

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