Textos categorizados 'feminino'

andava de modo a impressionar alguém, não sei quem. apesar de vê-lo apenas pelas costas, já que ia alguns passos à minha frente, sei que sorria.
carregava uma pilha de cadernos junto ao peito, e surpreendia o andar, ora rebolativo, ora saltitante.

olhou para trás e avistou alguém a quem emprestou seu pensamento. então, sorriu. tinha um rosto e um sorriso femininos. uma pele escura e feminina. o corpo muito magro e os cabelos muito curtos eram indiferentes ao sexo, mas era um homem. um homem muito parecido com uma mulher.

talvez ele – ela – o visse diferente. talvez se tratasse de uma mulher. uma mulher porque se sentia como tal. talvez fosse, de fato, ele, ou ela, mais feminino do que eu mesma. e o que importa o que eu penso? importa o sentimento que teve quando sorriu. uma alegria incomum, rara, incômoda, perturbadora, que transpõe o sexo, que penetra a alma.

não era homem, nem mulher. era humano.

Mulher tamanho G – episódio quatro

Musa de Botero

Musa de Botero

Um avião parecia cruzar a barreira do som, mas era apenas seu estômago roncando. Que diabo! Recém havia comido. Um hamburger. Duplo. E batatas fritas. E meio litro de refri. Mas o refri era diet.

Do outro lado da cabine do provador de roupa, alguém disse: mãe, o M ficou grande, traz um P? No seu caso, todas as roupas eram tamanho GG. Mas algumas não serviam, ficavam apertadas demais. Para piorar, a atendente, uma anã de metro e meio, não a deixara entrar com nove peças de roupa. O máximo era oito. Mas então por que existiam as fichas nove e dez?

Aquele papo de que listras horizontais não ficam bem para uma mulher tamanho G é balela. Nada fica bem em uma mulher tamanho G. Nem estampas, nem listras, nem cores vibrantes. Mas existe algo milagroso. O pretinho básico.

– Gostosa… – sussurou um homem quando passou. O homem era feio, malvestido. – Gostosa… – disse o homem com a voz impregnada de malícia. Ainda tinha sua vaidade. Ainda procurava as melhores roupas e perfumes. – Gostosa… – o sussurro lhe bateu. E lhe trouxe um sorriso discreto de satisfação.

Mulher tamanho G – episódio dois

Musa de Botero

Musa de Botero

- Ahh, mas como tá bonita! Bem gorda! – disse a velha tia de mais de sessenta anos.

Não. Não se trata se uma ironia velada, nem de uma contradição absurda. Para a velha tia de mais de sessenta anos, a gordura era sinônimo de beleza. E de saúde. Diz a minha vó que mulher bonita era Martha Rocha, a que perdeu o Miss Universo por ter duas polegadas a mais de quadris. Tinha ancas, a Martha Rocha. Será que foi por essa exuberância toda que ela virou nome de uma torta recheada, coberta com fios de ovos?

A velha tia de mais de sessenta anos adora dar um tapinha nas costas. Acho que é para ouvir o estalo que dá o tapa contra as costas gordinhas.

- Oi, vô.
- Oi. Tá bonita, hoje.
- Obrigada, vô.

Toda vez que o vô diz “tá bonita”, é sinal de que é hora de começar uma dieta. Se a neta chega magra, ele diz:

- Tem que engordar mais um pouco.
- Mas, vô! Eu tenho é que emagrecer!
- Não. Tem que ganhar mais um, dois quilos.

O bom de ter família é que não precisamos nos preocupar com a balança. A família sempre nos diz a verdade.

- Não gostou da comida? Comeu tão pouco…
- Mas, vó! Eu repeti duas vezes a comida!
- Hum. Nem vi tu comer.
- Vó, eu não posso ficar comendo essas coisas. Eu tô gorda.
- Tu não tá gorda, nada. Tu é forte.
- Ai, vó…

Legal também é quando chega o aniversário. Vejamos o saldo:
- Se ganhou livros, DVDs ou edredon: gorda
- Se ganhou uma roupa tamanho GG, XL ou extra-grande: gorda
- Se ganhou uma roupa P ou M e não serviu: gorda
- Se ganhou um abrigo ou roupas de ginástica: gorda
- Uma esteira elétrica: gorda
- Um tênis para caminhada: gorda

É… chega um dia que não são só as roupas que não servem mais. As desculpas também não.

Mulher tamanho G – episódio um

Musa de Botero

Musa de Botero

Acorda com o despertador. Dorme de novo. Acorda com o rádio-relógio. Desliga com o pé e dorme de novo. Mãe abre a porta e chama. Diz “arrã, já vou”, e volta a dormir.

Acorda, do nada, 30 minutos depois: putamerda! Tô atrasada!

Estende a mão sobre a poltrona e pega a calça, ainda semidormindo. A mesma calça de ontem, tsc, tsc, que feio. Mas vai aquela mesma, é a única não-amassada em com “stretch”. Estica.

Blusas, blusas, blusas. Não tem blusas. Agacha-se e fica por um longo minuto a olhar a prateleira das blusas. Nada que preste. Só blusas de verão, e já não é mais verão há meses. Mas que droga, nunca dá tempo de comprar roupas novas. E dinheiro? E essa futilidade agora?

Pega uma camiseta de mangas curtas. Justa demais. Há quantos anos essa camiseta existe? Sabe-se lá, séculos. E ainda é cinza. Sobra um terço de barriga para fora. Putaquepariu! Nada serve!

Olha, olha, reolha prateleiras. Atrasada. Com sono. Inútil. Sem ter o que vestir. Uma roupa xexelenta e justa. A mesma calça de ontem. E uma luz fosforescente piscando, lá no espelho, escrito: GORDA. IMENSA. CLAUSTROFÓBICA DE TÃO GORDA.

Era o apocalipse.


Me, myself and I

Cláudia Flores, 26 anos, jornalista de Porto Alegre perdida em São Paulo. Procurando saber o que tudo isso significa.

@claudiaflores

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