andava de modo a impressionar alguém, não sei quem. apesar de vê-lo apenas pelas costas, já que ia alguns passos à minha frente, sei que sorria.
carregava uma pilha de cadernos junto ao peito, e surpreendia o andar, ora rebolativo, ora saltitante.
olhou para trás e avistou alguém a quem emprestou seu pensamento. então, sorriu. tinha um rosto e um sorriso femininos. uma pele escura e feminina. o corpo muito magro e os cabelos muito curtos eram indiferentes ao sexo, mas era um homem. um homem muito parecido com uma mulher.
talvez ele – ela – o visse diferente. talvez se tratasse de uma mulher. uma mulher porque se sentia como tal. talvez fosse, de fato, ele, ou ela, mais feminino do que eu mesma. e o que importa o que eu penso? importa o sentimento que teve quando sorriu. uma alegria incomum, rara, incômoda, perturbadora, que transpõe o sexo, que penetra a alma.
não era homem, nem mulher. era humano.




