Textos categorizados 'literatura'

andava de modo a impressionar alguém, não sei quem. apesar de vê-lo apenas pelas costas, já que ia alguns passos à minha frente, sei que sorria.
carregava uma pilha de cadernos junto ao peito, e surpreendia o andar, ora rebolativo, ora saltitante.

olhou para trás e avistou alguém a quem emprestou seu pensamento. então, sorriu. tinha um rosto e um sorriso femininos. uma pele escura e feminina. o corpo muito magro e os cabelos muito curtos eram indiferentes ao sexo, mas era um homem. um homem muito parecido com uma mulher.

talvez ele – ela – o visse diferente. talvez se tratasse de uma mulher. uma mulher porque se sentia como tal. talvez fosse, de fato, ele, ou ela, mais feminino do que eu mesma. e o que importa o que eu penso? importa o sentimento que teve quando sorriu. uma alegria incomum, rara, incômoda, perturbadora, que transpõe o sexo, que penetra a alma.

não era homem, nem mulher. era humano.

Cinebiografia: Quando a ficção apanha de relho

Peço perdão pelo tempo que fiquei sem postar, o que, na realidade, é pedir perdão para o absolutamente nada. Ninguém lê este blog e eu lamento que a culpa disso tudo seja da minha síntese perfeita de “falta de tempo + preguiça”. Já assunto, não. Assunto não falta nunca.

Para voltar já tocando num assunto que muito me agrada, me refiro a esta matéria do Estadão que fala sobre a cinebiografia como um terreno fértil para o cinema nacional. Num momento em que já temos uma obra significativa de biografias bem escritas e minuciosamente documentais, o cinema vê como grande possibilidade a recontagem destas histórias de mitos e personagens históricos e da cultura nacional.

A matéria cita como exemplo o mais novo lançamento do gênero nos cinemas, que é o documentário Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, que ainda não estreou em Porto Alegre, relembra outros longas populares, como Cazuza, Pelé Eterno, Dois Filhos de Francisco, e anuncia a atual fase de finalização da cinebiografia de Lula, produzida por Bruno Barreto.

Confesso. Acho o máximo as biografias dramatizadas em cinema, teatro e tevê. Elas têm um glamour que a vida real não tem. Já havia falado sobre isso aqui quando comentei da minissérie Maysa, da Globo. Há o enquadramento para captar o olhar mais perfeito, há um ensaio para que se profira a fala mais certa, ou seja, é um pouco da idealização que criamos a respeito dos personagens da vida real.

Concordo plenamente com a matéria quando ela diz que a não-ficção está dando de relho na ficção, mas nada substitui os livros-biografia (a matéria não disse isso, eu que tô dizendo). A complexidade da narrativa permite, sim, que se descreva detalhadamente uma personagem em muitos aspectos sem que se crie um personagem idealizado, pelo contrário. Humano, e é aí que está a sua maior beleza.

Os 100 anos da brasileira mais famosa do século XX

Carmen Miranda

Carmen Miranda

Olho com felicidade citações na Folha de São Paulo, Zero Hora, no Jornal do Brasil, Terra, O Globo, em periódicos portugueses, enfim, todos citando de alguma forma o centenário de Carmen Miranda, que é completado nesta segunda-feira, dia 9 de fevereiro. A imprensa resgatou a história desta mulher simplesmente apaixonante como pôde. Espero que muitas comemorações ainda estejam por vir.

Carmen Miranda merece ser celebrada um século depois porque foi uma mulher adiante de seu tempo. Foi uma mulher forte, ousada, de vanguarda. Carmen inspirou o Brasil em diversas áreas, fosse na música, no estilo, atitude, talento. Não há dúvida que o sucesso que ela fez nos Estados Unidos foi aproveitado muito bem sim senhor pelos marqueteiros de cá. Dizer que Carmen tinha a cara e o jeito apimentado do Brasil não deixava de ser uma grande verdade. Mas talvez não tenha sido a incorporação de um símbolo nacional o que ela realmente quisesse ser.

Antes de concluir, uma ressalva: meu trabalho de final de curso em Jornalismo foi com base no livro-biografia de Carmen Miranda escrito por Ruy Castro. A partir de Carmen – Uma biografia, eu procurei investigar o gênero da biografia como um modo legítimo de se fazer jornalismo. O Ruy Castro me mostrou, através do estilo dele, o jornalismo do bom. E isso foi, pra mim, um divisor de águas. Tudo isso me deu um gás a mais para escrever esta monografia, que compartilho com quem possa se interessar pelo assunto.

Leia e baixe em PDF: O gênero biográfico como expressão do fazer jornalístico

A versão ainda não está atualizada. Há uma correção feita pelo próprio Ruy Castro que não está alterada neste PDF (o número de entrevistas que digo terem sido feitas para o livro é – na verdade – o número de entrevistados. Cada um foi entrevistado por diversas vezes, então esta é a correção).

Academicismos à parte, sou uma apaixonada por esta pequenina grande artista. Sempre recomendo a todos que leiam o livro para formularem suas próprias visões sobre ela. A minha é que, tirando toda aquela parafernália de turbante, pulseiras, sandálias, saiotes e tudo o mais, ela, com um metro e meio de altura, era um verdadeiro mulherão.

A verdade não existe (isso não é uma verdade)

Acabo de receber um comentário a respeito de um post meu publicado em 2 de setembro do ano passado, intitulado “A verdade não existe“. É do autor da citação feita no post, o jornalista Reynaldo Damázio. Diz ele o seguinte:

Cara Claudia, lamento que você tenha falseado meu pensamento, deslocando o parágrafo do contexto, para uso pessoal, arbitrário. Além de cometer um equívoco primário, sua atitude demonstra falta de honestidade intelectual. Não há em meu texto qualquer defesa de verdades absolutas. Leia com mais atenção… Um abraço, Reynaldo

Confesso que reagi com surpresa à ponderação do colega jornalista. Mas me senti lisonjeada em ter sua opinião registrada aqui no blog. Peço licença (e compreensão) para responder às considerações do Reynaldo, a quem não pretendi atribuir nenhum tipo de defesa de verdades absolutas.

Como eu afirmei no blog, o texto da revista, intitulado Entre o imediato e a transcendência fala a respeito da questão do Jornalismo X Literatura. Uma questão deliciosa de se ler e estudar como, suponho, julga também o autor, já que o artigo passeia pelas diversas etapas desta relação entre ficção e realidade, ilustradas pelos principais autores do gênero. Bem interessante. Mas em nenhum momento eu havia, até então, feito qualquer crítica a respeito do artigo de Reynaldo Damázio.

Em relação ao excerto, sim, realmente eu desloquei do texto somente duas frases, mas poderia ter retirado apenas um termo, “verdade”, que era o motivo da minha reflexão. Talvez eu tenha sido leviana, sim, em dizer que a verdade é algo inventado por aqueles que Nelson Rodrigues chamava de “os idiotas da objetividade”. Mas este é apenas o meu ponto de vista.

Penso também que o termo “verdade” deveria ser utilizado com mais restrição no Jornalismo. Toda verdade pressupõe um discurso, e todo discurso pressupõe um posicionamento. O que é verdade na reportagem de que falei semana passada, que Veja fez sobre Che Guevara? Para mim, manipulação é falta de honestidade intelectual. Opinião cada um tem a sua, e que bom que somos livres para pensar de maneira diversa. Reynaldo, abraço pra ti.

O saldo da Feira

Fazia tanto tempo que não escrevia que não consegui fazer minhas últimas considerações sobre a Feira do Livro de Porto Alegre antes que a Feira terminasse. De qualquer forma, a Feira já se acabou mas eu preciso falar sobre isso porque esta 54ª Feira do Livro foi uma feira em que lucrei. Sim, lucrei horrores. Sem ganhar nenhum tostão, é claro, gastei no fim das contas até mais do que podia. Mas a soma de páginas, o cheiro dos sebos e a sensação dos livrinhos em minhas mãos são a melhor coisa.

Mas vamos lá, ao saldo da Feira 2008:

Memórias de Adriano

Memórias de Adriano

Memórias de Adriano, de Marguerite Youcenar. 5 pilas no saldão. Levou 27 anos para ser concluído, diz aqui na orelha que “teve  diversos manuscritos destruídos, outros desaparecidos, outros interrompidos para pesquisas mais profundas e” [o que me chamou mais atenção] “crises de desânimo diante da magnitude da obra. Nas horas de desencorajamento, a autora visitava museus, consultava bibliotecas e sofria diante da obra inacabada”. A grande chave do livro é que Madame Youcenar o escreveu em primeira pessoa, como se fosse um livro de memórias escrito pelo próprio Imperador Adriano. Imagina a loucura em que essa mulher entrou ao escrever as memórias de um imperador da Roma antiga em plenos anos 1950. Estou louca para ler, mas este não é o primeiro da fila. De “importância transcendental”, é assim que a tradutora classifica o livro. É uma leitura obrigatória para o estudo da biografia. Youcenar parece ter mudado a maneira de ver a história. Aqui deixamos de ver a história positivista dos grandes heróis indefectíveis da humanidade. A história de um grande homem por uma sensível mulher.

A Alma Encantadora das Ruas
A Alma Encantadora das Ruas

A alma encantadora das ruas, de João do Rio. Doze pilas, edição quentinha de tão nova.
Ele era impecavelmente elegante, ou, como define Renato Cordeiro Gomes, um homem de “terno bem talhado, camisa de seda, gravata fina, colete, colarinho alto e rígido, chapéu de bico, monóculo, bengala, um figurino à moda de Paris e Londres”. Seu nome era Paulo. Paulo Barreto. Mas João engoliu Paulo. E se tornou um dos maiores talentos brasileiros do que diz respeito à crônica e à etnografia. O homem descreveu o Rio de Janeiro como se descreve milimetricamente e lindamente um corpo feminino – no qual, sabemos, ele não era chegado – mas com toda a maestria. Era um adorador das ruas, era um freqüentador das altas rodas da high society carioca e dos terreiros de candomblé dos morros. Dizem que, quando João do Rio morreu, o Rio parou por um segundo. E metade da população da cidade veio dos quatro cantos para jogar João na terra da qual ele nunca deixou de fazer parte.

E aceito indicações de mais livros BONS!

(Continua…)

Eu não sei se poderei ir, mas recomendo

OFICINA DE LITERATURA COM VALESCA DE ASSIS
Desbloqueio para  a escrita criativa é o tema da oficina com escritora gaúcha 

A escritora Valesca de Assis vai ministrar no dia 3 de dezembro (quarta-feira), das 14h às 17h, uma oficina de desbloqueio para a escrita criativa. A aula ocorrerá no Espaço Charles Kiefer de Oficinas Literárias, na Rua Itororó, número 175/206, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre.

Conforme explica Valesca de Assis, esta oficina se propõe a “criar pontes entre o que está aprisionado e a atividade libertadora de escrever, além de favorecer insights e oportunizar a re-descoberta do continente original que é cada um dos participantes”.

Valesca de Assis se baseia na técnica desenvolvida por autores brasileiros e internacionais no trabalho de desbloqueio para a escrita criativa. A proposta da autora é que no decorrer do trabalho os alunos vislumbrem o caminho fascinante da Literatura, seja como escritor ou como um leitor mais qualificado.

Valesca de Assis tem formação em Filosofia e História e é autora de várias obras de ficção, entre elas A Valsa da Medusa, A colheita dos dias, O livro das generosidades, Harmonia das Esferas, Todos os meses e Diciodiário.

Informações e inscrições para a oficina de desbloqueio para a escrita criativa com a escritora Valesca de Assis pelo telefone (51) 8116-7928.

Entrevista com o patrono – Parte II

A segunda parte da entrevista com o escritor Charles Kiefer trata um pouco da obra do escritor. Assiste e diz o que achou:

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Me, myself and I

Cláudia Flores, 26 anos, jornalista de Porto Alegre perdida em São Paulo. Procurando saber o que tudo isso significa.

@claudiaflores

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