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Mar verde-e-rosa

Este CD tem doze viciantes sambas de Cartola

Tive, sim
Outro grande amor antes do teu
Tive, sim
O que ela sonhava eram os meus sonhos e assim
Íamos vivendo em paz
Nosso lar, em nosso lar sempre houve alegria
Eu vivia tão contente
Como contente ao teu lado estou

Me dou conta de uma feliz coincidência ao ouvir aqui em casa estes versos tão lindos do Cartola, e que agora, para mim, soam ainda mais belos. Aquela beleza misturada com a tristeza de uma terceira pessoa, um fantasma, a invadir a terna circunferência de um lar, uma relação a dois. Aquilo que, se já não vivemos, ainda viveremos. 

A coincidência, que acabo de perceber, é que tenho o Cartola estampado no peito da minha camiseta verde e rosa justamente hoje, que descobri que esta música, Tive sim, salvou o compositor de um mar de dívidas com a falência do Zicartola, casa de samba de propriedade do pai da estação verde-e-rosa.

Não houve mar de rosas para o poeta dos óculos escuros. Apenas o perfume de rosas silenciosas.

Pérolas da MPB e produtinhos de segunda catigoria

Daria um dedo pra estar nesse show

Daria um dedo pra estar nesse show

Estou aqui para confessar a fonte dos meus pecados. Bento dezesseis já teria propriedade para  me excomungar se quisesse, pois eu comento o pecado contemporâneo do consumo compulsivo de livros, revistas, CDs, DVDs e cadernetas. Simplesmente não consigo entrar numa banca, loja de discos, livraria ou papelaria sem comprar nada. Sinto-me no paraíso cultural. Confesso que adoraria que um dia fechassem uma livraria e me esquecessem dentro. Um dia tentarei me esconder em algum cantinho pra ver se funciona. Será que as livrarias tem banheiros?

Whateaver. Consegui obter duas façanhas, hoje, numa mesma compra: adquiri uma pérola rara para os amantes da música popular brasileira, e também um produto de qualidade puramente cocô. Me refiro, respectivamente, aos DVDs ”Jobim, Vinícius e Toquinho com Miúcha – Musicalmente” e o “João Bosco Ao Vivo – Obrigado, gente”.

O primeiro, que custou a bagatela de R$ 14,90 nas Lojas Americanas, é registro de uma gravação que reuniu o quarteto em um show na Itália, em 1978, com performances inexplicáveis de Tom e Toquinho, e a presença apaixonante do velho poetinha, que já não andava bem de saúde, mas nunca abria mão do seu parceiro mais constante, o copo de whisky. Aos que gostam de música de qualidade, não deixem de ver um trecho no youtube, mas, com o perdão do ímpeto consumista, não tem comparação o ato de comprar o DVD (tão baratinho!) e pensar no quanto é bom possuir o registro de uma raridade como esta. Aos que não gostam do gênero, vão todos plantar chuchu, já que não sabem o que é bom.

Quanto ao segundo, eu digo: NÃO COMPREM, É UMA BOSTA. Me desculpe, João Bosco, compositor e músico com excelência, autor de canções insubstituíveis da MPB, sou tua fã, tu é fodão, mas não podia ter aceito produzir um DVD ao vivo em que a tua voz simplesmente se anula entre os instrumentos. Deu pena de ver um cara no patamar do João Bosco se esgoelando para cantar em um teatro (Ibirapuera, em SP) em que a acústica não favoreceu, e a edição do DVD deve ter sido de um cara que dormiu ou fumou vários antes de ir trabalhar. Sorry, João Bosco, mas foi uma excelentíssima cagada. De catigoria mesmo.

Ah, e para equilibrar a péssima com a maravilhosa aquisição, também comprei de olhos fechados o Nelson Gonçalves da edição Maxximun, que tem uma gravação genial (a mim, desconhecida), chamada “E os outros que se danem Football Club”. O tio Nelson é o cara. O resto, como diria meu querido professor Wladymir Ungaretti, é perfumaria.


Me, myself and I

Cláudia Flores, 26 anos, jornalista de Porto Alegre perdida em São Paulo. Procurando saber o que tudo isso significa.

@claudiaflores

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