Textos categorizados 'mundo cão'

Sorte ou revés? Tire uma carta

Dia desses, num ônibus em São Paulo, eu pensei (como tantas vezes) no fato de eu estar em São Paulo, sobre a cidade em si e sobre aquela ideia de metrópole gigantesca. A propósito odeio a palavra megalópole. Metrópole é tão mais bonito, tá certo, não são sinônimos, mas ao dizer megalópole não parece que estou dizendo “me galope”? Péssimo.

Pois bem. O fato é que eu estava no ônibus me sentindo no tabuleiro do Banco Imobiliário, passando na Rebouças, Brigadeiro, Paulista, Augusta, Jardins. E pensando no quanto era bom na época do Banco Imobiliário, afinal eu tinha dinheiro e propriedades. Sorte ou revés? Pague o aluguel. Agora, do Banco Imobiliário, eu só pago o aluguel.

Diário de Lola

Querido diário, escrevo porque estou muito entediada. Faz alguns dias que meu pátio estragou, e quase não posso correr nem destruir as plantas. É que o pátio anda muito molhado. Não lembro de ter feito tanto xixi assim. É estranho, pois cai água do céu. Muita água. Tudo isso me dá sede. Schlip, schlip. Estou aqui no computador já que minha dona deixou ele ligado e dormiu. Minha dona é meio estranha, ela dorme em cima de um grande caixote de madeira. Mas até que é legal, me dá comidas e adoro mordê-la, mas ela reclama um pouco.

Desde que cheguei, ganhei muitos presentes. Bolas, coisinhas para roer, um cobertor quentinho, pratinhos para água e comida. E muitos jornais, adoro jornais. Não para ler, eles nunca têm muita coisa de interessante. Mas é legal destrui-los. Toda vez que os sujo, minha dona recolhe tudo e joga num saco todo preto. Adoro brincar com ela disso, eu sujo tudo, daí ela vem recolher e põe novos jornais. Pena que ela passe um líquido de limpeza fedido toda vez que limpa o chão. Prefiro o meu cheirinho, é muito melhor.

Tenho fome, mas nem sempre me dão comida. Só em determinados horários. Essa manhã, fiz meu desjejum às 5h30, depois, às 7h30, minha dona me deu um potinho daquele leite fermentado com lactobacilos vivos. É muito bom aquilo, pena que vem tão pouquinho no pote. Mais tarde, minha dona abriu o saquinho de palitinhos, que adoro, mas ela só me dá quando eu me sento no lugar certo para comer. Hoje ela achou a maior graça que eu sentei no lugar certo sem ela me mandar, mas é que eu já entendo bem as coisas. Só preciso aprender como postar fotos minhas aqui. Alguém pode me ajudar?

Bem, minha dona tá acordando. Vou nessa. Au-au.

Lola

Sobre a vida mansa

A partir de hoje, estou de folga por uma semana. Na “vida mansa”, diz meu chefe. Mas a vida nunca foi mansa por aqui. A vida me arreganha os dentes toda vez que eu saio de casa. E quando não saio também.

– O médico me disse que eu preciso de um ano de folga – disse eu à minha chefa, que me olhou com uma cara de que “essa não colou, Cláudia”. Pelo menos eu tentei, mas não colou mesmo. Mas uma semaninha, pelo menos, eu vou tirar. Só que não será pra cair na gandaia nem pra ficar no clube do nadismo.

Confesso. Tenho mil coisas atrasadas que não fiz. Mil. Absurdas coisas que adiei por meses a fio. Ainda não fui buscar meu diploma de jornalista. Faz seis meses que me formei. Nem as fotos da formatura eu peguei na tal produtora. Não estranharei se tiverem jogado tudo fora pensando que eu morri.

Faz quase um ano que o meu cartão de banco venceu. Não me mandaram outro. Não fui buscar. Podem ter roubado os trocados que eu tinha lá. É absurda sim, minha total negligência diante de certas coisas. Faz uns cinco anos que preciso fazer massagem nas costas, porque elas me dóem. Fui só uma vez fazer e nunca mais voltei. Academia, paguei três meses. Fui meio mês, ou nem isso. “Vagabundagem”, vão dizer, “preguiça”, mas fiquei por muito tempo inerte, paralisada. Como é difícil voltar a viver. Pronto, falei.


Me, myself and I

Cláudia Flores, 26 anos, jornalista de Porto Alegre perdida em São Paulo. Procurando saber o que tudo isso significa.

@claudiaflores

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