Textos categorizados 'ungaretti'

Anotações para uma aula subversiva – Parte II

ANOTAÇÃO IV – Na atualidade, sem as intimidações diretas e indiretas dos agentes da ditadura; com a consolidação das assessorias de imprensa e a formação controlada dos cursinhos de “comunicologia”; além, é claro, dos respectivos cursos em que as empresas selecionam “focas” para adestramento, eficiente instrumento de recrutamento dos confiáveis ideologicamente, a produção de imagens está no centro da imposição de bens simbólicos, reacionários e criminalizadores. O diploma não está ameaçado. Bem ao contrário, o fortalecimento da obrigatoriedade significa o fortalecimento do showrnalismo. Da prática da perfumaria. Os interesses estão sincronizados.

ANOTAÇÃO V – No cotidiano, relações de alta complexidade e competitividade consolidam uma cadeia de conivências. As imagens fotográficas, produzidas a partir do “olhar isento” das assessorias ”complementam” matérias produzidas a partir de informações de press releases, tituladas por editores, todos de confiança e treinados na introjeção dos interesses das respectivas unidades de produção da indústria pesada da comunicação de massa, para a qual todos vendem suas forças  “criativas” de trabalho. Nada críticas. E showtógrafos, quando pautados, são instrumentos conscientes da “hipocrisia fotográfica”.  Ou ainda: abatidos e apáticos, produzem o material já dentro das normas. O editor “filtra os delizes” em último caso. O modelo ideal de profissional, já revelado abertamente pela “Folha de São Paulo”, é o denominado jornalista multimídia. Confiável ideologicamente, capaz de alimentar todos os suportes (jornal, rádio, tv, internet), domínio de todos os instrumentos tecnológicos de comunicação, falando no mínimo uma ou duas línguas estrangeiras, limpos e assépticos. Produtores, em verdade, de secos e molhados. O Rodrigo Lopes, de Zerolândia, é um “vencedor”. É cada vez menor o lugar para gente tosca. Os subversivos já foram eliminados; alguns poucos sobrevivem nas redações por um descuido qualquer do sistema. Estão clandestinos. E, com razão, amedrontados. JORNALISMO é subversão.

ANOTAÇÃO VI – Repetitivamente não posso deixar de assinalar que temos a exata noção do o quanto é complexa toda esta questão. Assim como, mais uma vez, registramos que não temos a pretensão – e muito menos ainda a arrogância – de acharmos que temos toda a verdade. Reivindicamos, apenas, uma parte dela. Este não é um suporte (internet/blog) muito adequado a um longo texto. Ainda mais com fundo preto e letras vermelhas [do layout original do blog Ponto de Vista]. Temos, por isso mesmo, a noção de que muitas palavras, idéias e raciocínios estão aqui “jogados”  a partir de pressupostos. Conceitos possuem uma história, uma determinada trajetória de incorporação de outros conceitos.

ANOTAÇÃO VII – Ainda assim, a partir de todas estas considerações, precisamos assinalar que como jornalista (da velha geração) e professor temos o péssimo hábito de pensar. Arriscamos. Esta prática fica sempre associada a uma determinada forma, a de pensar criticamente. É evidente que – e não poderia ser de outra forma – muitas de nossas avaliações poderão estar equivocadas. Mas são resultantes deste pensar criticamente, de forma absolutamente honesta. Nenhuma de nossas considerações estão orientadas pela ganância, inveja ou por algum tipo de ressentimento de caráter pessoal. Sou um privilegiado. Não estou submetido à tortura que deve ser (para quem tem caráter) vender a força de trabalho à mídia corporativa. A selva capitalista conta com a necessidade de sobrevivência de todos nós. Por um descuido do sistema ingressei na academia. E tenho diante de mim jovens e, para alguns deles, em número cada vez menor com o passar dos anos, ainda faz sentido o que digo em sala de aula. A estes tenho doado minha alma. Com modéstia estou construindo uma história como educador. Os cursos de pós-graduação (mestrado e doutorado), formadores dos professores que, por sua vez, irão formar os futuros jornalistas pertecem a esta esfera de conivências. Não por acaso, com raríssimas excessões, os alunos que ingressam são aqueles dos quais não tive uma boa impressão na graduação. Quase sempre legimatores de professores especializados no adestramento da covardia. O ensino do nosso país é uma tragédia.

Do blog Ponto de Vista, do professor Wladymir Ungaretti, cujo conteúdo foi censurado injustamente. Importante que se saiba que continua crescendo o número de pessoas questionando esta decisão judicial. Esta discussão deve continuar pelo benefício da nossa liberdade de opinar e pelo trabalho que o professor Ungaretti tem feito – dentro e fora das salas de aula – no curso de Jornalismo da Fabico, onde me formei. Esta é uma demonstração pequena mas sincera do meu apoio, meu respeito, carinho, admiração e profunda gratidão.

Anotações para uma aula subversiva

ANOTAÇÃO I – Na produção de imagens fotográficas não existe um “olhar isento”. Nem tão pouco uma “edição igualmente isenta”. Pensadores, com elevado grau de sofisticação intelectual, já escreveram sobre o tema. Lembro de textos de Vilém Flusser, Adorno e Walter Benjamin. Ainda assim, nunca é demais (re)afirmarmos que existe uma disputa ideológica na produção e respectiva utilização das imagens. Uma imagem sugere uma  determinada  subjetividade. Fotógrafos produzem, conscientemente ou não, estas subjetividades. Bens simbólicos.

ANOTAÇÃO II – Não por uma simples e inexplicável vontade do Divino Espírito Santo que, em plena ditadura, o curso de jornalismo foi desvinculado da área de ciências sociais (no caso da UFRGS) e sua estrutura física deslocada para o campus da saúde. Para o mais absoluto isolamento e onde permanece até os dias atuais. Agora, bem ao lado da Escola Técnica. E, quase que na mesma ocasião, os militares criaram as faculdades de “comunicologia” e a habilitação em RP (relações públicas). Medida assinada pelos ministros Jarbas Passarinho e Delfim Neto.

ANOTAÇÃO III – Nos tempos atuais, ao examinarmos todo o material fotográfico de uma edição de Zerolândia, por exemplo, constatamos que cerca de 95%, em média, de todas as fotos publicadas são originárias das assessorias de imprensa e das agências. Creditadas como foto/divulgação. Não se trata apenas de uma questão de redução dos custos operacionais. É uma necessidade “empresarial” de controle político e ideológico. No passado, velhos e combativos fotógrafos realizavam seus registros a partir de um “determinado olhar”, assim como a maioria dos repórteres escreviam, também, a partir de um determinado enfoque. Um quadro geral que acabou determinando, por parte da ditadura, um descarado incentivo às atividades das assessorias de relações públicas. É desse período o aparecimento dos “jornalistas” com duplo emprego. Prática não mais necessária, nos tempos atuais, pela disponibilidade de profissionais, além da necessidade da manutenção da imagem de isenção. Segue a babaquice da discussão da obrigatoriedade do diploma. Os bons fotógrafos(as), diplomados, estão quase todos desempregados.

Do blog Ponto de Vista, do professor e amigo Wladymir Ungaretti.

Censurando o Ungaretti

Acabo de ler com surpresa, pra mim foi novidade, no Observatório da Imprensa, que o fotógrafo da Zero Hora Ronaldo Bernardi está processando o Ungaretti. O artigo, do jornalista ex-fabicano Ronaldo Martins Botelho, é do mês passado, e traz uma análise que eu assino embaixo. Vale a pena dar uma lida, e uma olhada nos comentários do professor a respeito das fotos do cara.

Livros, cafés, prosas e uma notícia espetacular

biblioteca dos meus sonhos

biblioteca dos meus sonhos

Pois então, voltei a escrever. Já não era sem tempo. Quem sabe não começo a expelir teias de aranha e me torno mais feliz? Bem, esta era a notícia espetacular.

* * *

Ainda estou ruminando os frutos do café que tomei esta semana com o professor Ungaretti. Ganhei um livro do Alejo Carpentier! (que prometo, veementemente prometo, resenhar para este blóg), e ainda uns cafés e mais uma aula tão simplesmente espetacular, que ainda estou digerindo a prosa toda. Poderia ter ficado ali umas trocentas horas ouvindo conversas mil que, assim como na biblioteca da minha imaginação, o professor vai empilhando seus livros e mais livros e histórias que dariam muitos outros livros sensacionais.

O restante, da minha gratidão, nada posso expressar. O tempo e os sonhos dirão.

Pérolas da MPB e produtinhos de segunda catigoria

Daria um dedo pra estar nesse show

Daria um dedo pra estar nesse show

Estou aqui para confessar a fonte dos meus pecados. Bento dezesseis já teria propriedade para  me excomungar se quisesse, pois eu comento o pecado contemporâneo do consumo compulsivo de livros, revistas, CDs, DVDs e cadernetas. Simplesmente não consigo entrar numa banca, loja de discos, livraria ou papelaria sem comprar nada. Sinto-me no paraíso cultural. Confesso que adoraria que um dia fechassem uma livraria e me esquecessem dentro. Um dia tentarei me esconder em algum cantinho pra ver se funciona. Será que as livrarias tem banheiros?

Whateaver. Consegui obter duas façanhas, hoje, numa mesma compra: adquiri uma pérola rara para os amantes da música popular brasileira, e também um produto de qualidade puramente cocô. Me refiro, respectivamente, aos DVDs ”Jobim, Vinícius e Toquinho com Miúcha – Musicalmente” e o “João Bosco Ao Vivo – Obrigado, gente”.

O primeiro, que custou a bagatela de R$ 14,90 nas Lojas Americanas, é registro de uma gravação que reuniu o quarteto em um show na Itália, em 1978, com performances inexplicáveis de Tom e Toquinho, e a presença apaixonante do velho poetinha, que já não andava bem de saúde, mas nunca abria mão do seu parceiro mais constante, o copo de whisky. Aos que gostam de música de qualidade, não deixem de ver um trecho no youtube, mas, com o perdão do ímpeto consumista, não tem comparação o ato de comprar o DVD (tão baratinho!) e pensar no quanto é bom possuir o registro de uma raridade como esta. Aos que não gostam do gênero, vão todos plantar chuchu, já que não sabem o que é bom.

Quanto ao segundo, eu digo: NÃO COMPREM, É UMA BOSTA. Me desculpe, João Bosco, compositor e músico com excelência, autor de canções insubstituíveis da MPB, sou tua fã, tu é fodão, mas não podia ter aceito produzir um DVD ao vivo em que a tua voz simplesmente se anula entre os instrumentos. Deu pena de ver um cara no patamar do João Bosco se esgoelando para cantar em um teatro (Ibirapuera, em SP) em que a acústica não favoreceu, e a edição do DVD deve ter sido de um cara que dormiu ou fumou vários antes de ir trabalhar. Sorry, João Bosco, mas foi uma excelentíssima cagada. De catigoria mesmo.

Ah, e para equilibrar a péssima com a maravilhosa aquisição, também comprei de olhos fechados o Nelson Gonçalves da edição Maxximun, que tem uma gravação genial (a mim, desconhecida), chamada “E os outros que se danem Football Club”. O tio Nelson é o cara. O resto, como diria meu querido professor Wladymir Ungaretti, é perfumaria.


Me, myself and I

Cláudia Flores, 26 anos, jornalista de Porto Alegre perdida em São Paulo. Procurando saber o que tudo isso significa.

@claudiaflores

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