Textos categorizados 'viagem'

Diário de Viagem III

tangoiii

Escrevo essas linhas ouvindo Gotan Project, e penso que não há trilha melhor para esse relato. Uma viagem tem um sabor de nova delícia mesmo que seja a um lugar que você já foi. E tudo é completamente apaixonante como os tangos portenhos (embora Gotan não seja uma banda exatamente portenha).

A chegada a Buenos Aires me trouxe uma sensação boa. Eu estava há tanto tempo sem viajar que tinha esquecido o quão bom viajar é! O barco ia se aproximando da cidade pelo Rio da Prata, e da janela só se via uns azuis difusos.

Em Buenos Aires fazia calor. Mas um calor dos infernos, como Porto Alegre em seus dias mais tórridos. Táxi até o hotel na Córdoba. O hotel tinha um elevador-cubículo que só cabiam três pessoas, mas éramos quatro. Certa vez tentamos nos apertar ali para todos subirem, e coube. Mas em seguida um alarme  começou a soar junto com uma luz piscando o aviso “sobrecarga”, sendo que teríamos que subir 11 andares nessa situação de terror. Mas sobrevivemos.

O hotel Embassy, aliás, tinha alguns problemas mesmo, nós não somos hóspedes chatos, mas puxavida, o elevador só descia até o 1º andar, sendo que para descer ao térreo só se podia pelas escadas. Ah, e o café da manhã tinha Ki-suco, ou algum outro suco artificial tipo Tang. Lamentavelmente intragável, só fazendo um mix com água junto. As medialunas (croissants) eram bem gostosos e o jamón & queso (presunto & queijo) idem. Só que todo dia era só isso de café, sempre a mesmíssima coisa.

Ah, também tinha o detalhe do vaso sanitário. É que o vaso sanitário não parecia estar afixado no chão, podendo tombar a qualquer momento com o ocupante do sanitário junto. Num dos quartos o controle remoto da tevê não funcionou nem com orações a Nuestra Señora, mas de todo modo era bonito ver a cidade pela janela.

De Buenos Aires hay muchas historias más. Pero puede esperar hasta mañana.

Diário de Viagem II

15 de dezembro

O longo e interminável trecho da estrada linear parecia querer dar no fim do mundo. Ou, quem sabe, num pote de ouro? Quanto mais andávamos pela rodovia uruguaia até chegar a Montevideo mais nos sentíamos, diria minha irmã, em uma imensa esteira elétrica que nos faria caminhar no mesmo lugar. A paisagem, no entanto, era imensa e bela, como uma extensão da pampa gaúcha.

No meio da estrada, almoçamos num paradouro mui hermoso onde fica a fábrica das cervejas Patrícia e de uma água mineral que, durante as caminhadas em buenos aires, seria nossa companheira, Salus. Todos pedimos peixe para acompanhar o prato principal, que era um caneco geladinho da Patrícia recém engarrafada. Os uruguaios sabem fazer cerveja, ulalá. Isso sem contar o doce de leite e os alfajores.

Em Montevideo, nos deparamos com uma metrópole com ar antigo, que lembra ruas, prédios e carros de Havana. Arborizada, cercada de prédios históricos, a cidade possui uma linda vista para o Rio de La Plata, que é como uma praia costeada por um calçadão onde as pessoas caminham, correm, pedalam. A paisagem é belíssima e se vê que há turistas de muitos lugares, especialmente porque a moeda do país, o peso uruguayo, é muito desvalorizado em relação ao dólar.

O hotel, Days Inn, era muito bom, diária relativamente barata, exatamente em frente à rodoviária-shópin-súper e ao lado de uma sorveteria bem barata. Em Montevideo, as pessoas são bastante cordiais e a cidade é bem limpa. Quanto à gastronomia, os tradicionais panchos, chivitos e empanadas são bem saborosos, mas jamais comam pizza lá. Ou melhor, antes de comer, pergunte o que vem na tal pizza, porque a que eu pedi era só molho,  molho e orégano, é possível uma coisa dessas? Uma pizza sem queijo? E o pior foi que a pizza era acompanhada por uma faina, que nada mais era que uma plaquinha de farinha de milho salgada em forma de pizza. Eu devia ter pedido um pancho.

A cama do Days Inn era melhor que a minha cama aqui de casa. De molas, coisa mais boa. Mas a noite foi curta, que no dia seguinte embarcaríamos para Buenos Aires.

Diário de viagem

Porto Alegre, 21 de dezembro de 2008.

Registrando alguns fatos da viagem a Buenos Aires e Montevideo para desempoeirar a mente que anda tão guardada em algum lugar que já não lembro mais onde foi.

14 de dezembro

9:00
A saída de Porto Alegre foi um tanto conturbada porque no momento em que estávamos todos prontos e o carro carregado, o carro não quis pegar. Fora o momento tragicômico, que nos fez perder uns 30 min de viagem, ficou a beleza de se admirar pelo caminho. Quando a paisagem e o denso ar urbano deu lugar a um ar mais fresco, mais limpo. A paisagem rural é adorável aqui no sul, porque nos sentimos personagens da epopéia farroupilha, como se em sonhos disparássemos pela pampa sobre um pingo valente. Uma imensidão verde que nos faz pensar por que no Brasil há tanta gente a reclamar por terra. E essa terra toda, é de quem? Vontade de deitar sobre o verde como que sobre um colchão macio. Vontade de sorrir sobre o verde e sonhar que a ninguém pode faltar um naco de terra como este.

12:30
Jaguarão é uma cidadezica que faz fronteira com o Uruguai. Pequenina, virgem das perdições megalomaníacas da cidade grande. Cu de mundo, no entanto, não é. A cidade que vive à beira do rio de mesmo nome é cheia de casas e prédios tombados muito jeitosos e tradicionalmente promove um carnaval de rua que – diz meu pai – é muito bom. Meu pai havia morado na cidade há vinte e sete anos atrás, quando então era um inspetor de polícia recém formado. Nunca perguntei a meu pai, mas acredito que ele não deve ter tido muito trabalho como policial por essas bandas.

À noite, as pessoas vão a praça matear, e domingo tem matiné para os mais jovens. A diversão em Jaguarão gira mesmo literalmente em torno da praça da cidade, porque as pessoas adoram dar voltas na praça, seja de carro ou a pé. Aos que acham monótono, invejem o fato de que eles podem andar à noite pelas ruas sem nenhunzinho perigo. Imaginem o que se economiza em gasolina e táxi nesta cidade!

14:00
Almoçamos em um bifê ou bufê a quilo da cidade e nos preparamos para, à tarde, cruzarmos a ponte que divide os dois países e desbravar terras uruguaias. E invadir alguns free-shops.

O Hotel Fronteira era mesmo muito fiel a seu nome e se localizava a alguns metros da ponte. Tinha wireless(!) e um pão muito interessante no desjejum. Mas um dado estranho. Tinha um ralo no teto do banheiro. Aquilo me intrigou. Para quê se teria um ralo no teto do banheiro?

16:00
Rio Branco. Este é o nome da cidade uruguaia que faz divisa com Jaguarão. Rio Branco? Mas por que não Rio Blanco?, eu questionando com o nome da cidade enquanto 99% das pessoas ali estavam muito ocupadas comprando e vendendo.

Não era tudo TÃO barato como gostaríamos que fosse, mas já era esperado graças à crise financeira mundial. Algumas coisas interessantes como as quesarias, que tinham um aroma insuportavelmente bom daqueles queijos de todos os tipos, mas admiti que sinceramente não gostaria de trabalhar dentro de uma quesaria nem a pau, porque lá dentro o cheiro de queijo é tão forte que penso que as vaquinhas se negariam a dar leite se sentissem o cheiro de seu produto final.

20:00
À noite, resolvemos jantar em territas uruguayas, e desfrutar de sua deliciosa gastronomia popular: panchos e mais panchos e chivitos e carne e a cerveza, que é a melhor que existe. Na tevê, uma chica de uns 7 anos e sua abuela assistiam ao Fantástico e pareciam entender absolutamente tudo. Já eu, em frente à TV uruguaia, só consegui entender os programas de receitas, e olhe lá.


Me, myself and I

Cláudia Flores, 26 anos, jornalista de Porto Alegre perdida em São Paulo. Procurando saber o que tudo isso significa.

@claudiaflores

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