Morre, aos 88 anos, o pintor Lucian Freud

Talvez a foto acima lhe traga uma sensação imediata de incômodo. Um choque para os seus olhos. Um retrato que pouco tem a ver com os que vemos todos os dias na “arte” midiática.  Tem, no entanto, muito a ver com a estética e seus conceitos. Isto – esta espécie de intensidade estética — está presente na obra do pintor alemão naturalizado britânico Lucian Freud, que morreu na última quarta-feira, aos 88 anos de idade.

Quando falo em “intensidade estética”, não estou querendo falar difícil ou dar uma de crítica de arte, mas expressar a sensação que eu mesma tive ao visitar uma exposição de Freud – que, aliás, era neto do pai da psicanálise Sigmund – em Paris no ano passado. Foi no Centre Georges Pompidou, que é o museu de arte moderna da cidade, eu estava com a minha amiga Sandra Leite num tour rápido, mas lindo, por Paris, e tivemos a chance de visitar uma exposição que, até hoje, não me sai da cabeça.

Há mais ou menos um ano, eu escrevi para o professor Wladymir Ungaretti relatando a minha visita à exposição, e transcrevi um excerto que havia no resumo do evento:

Lucian Freud, hoje com 88 anos, é uma figura da pintura contemporânea, e está entre os pintores vivos mais importantes do mundo. Não era exibido na França desde 1987.

A singularidade da obra de Lucian Freud é em grande parte ao tratamento meticuloso e quase obsessivo do retrato nu e com base em uma abordagem absoluta na arte da pintura. “Eu quero que a pintura seja carne (…)” ou” Para mim a pintura é a pessoa “, disse ele. O tema do workshop traz a metáfora da pintura: a câmera entre o pintor e seu modelo (de Rembrandt e Picasso, através Courbet), o espaço da pintura – retratando o processo criativo real – a figura do artista – auto-retratos e os professores de edição.

Anexei, ao e-mail que escrevi ao Ungaretti, um vídeo-teaser da exposição, que mostra bastante sobre a obra do pintor.

É tudo muito intenso e moderno modernista realista. Lucian Freud fazia tudo dentro de seu ateliê, um lugar completamente sujo de tinta, e usava a fotografia como recurso para a pintura. Ele fotografava o processo de produção e se valia desses registros para obter um segundo ângulo da imagem. As telas de nu que ele pintava são impressionantes, ele pintou homens, mas principalmente mulheres, a maioria fora dos padrões de beleza. A perfeição estava na disformidade da sua imagem. Fiquei ali naquela exposição muito menos tempo que gostaria.

Alguns jornais já montaram galerias em seus sites com registros da obra de Lucian Freud. O Huffington Post, o NY Times, o The Guardian, entre outros. Vale olhar, admirar e questionar os seus pré-conceitos em relação à beleza.

Ideas

Parece cada vez tão mais difícil sair da bolha da mesmice, pensar em coisas diferentes do que tudo que já existe por aí, viver experiências novas e preocupar-se a cada dia menos com aquilo que os outros estão dizendo de nós. É complicado pensar que estamos entrando em certas armaduras e perdendo nosso tempo com coisas fúteis e cada vez mais fúteis. Julgar, arremessar culpa, buscar mais revolta e menos diálogo, incompreender, hostilizar, ensimesmar-se, aceitar as coisas e as pessoas como elas apenas pretendem ser, e não como de fato são.

Onde guardar as ideias que queremos transformar em realidade? Confesso que ainda não encontrei onde colocá-las. Numa caixinha? Num blog? Num caderno? Eis o dilema de cada dia. Onde colocar os pensamentos que pedem encarecidamente para sair.

Eu e as outras

Voltei. O endereço é o mesmo, mas o nome está mais de acordo agora. O “La Même” não servia mais pra mim, minha vida mudou substancialmente há pouco mais de um ano. Em um ano, puts, tudo pode mudar. Tudo mesmo.

Por isso, mudei o letreiro aí. Claudias, sem acento e sem apóstrofe – nada daquela cafonice de bar chulé que, achando o suprassumo da chiqueza, coloca o nome de “Nelson’s Bar” em vez de “Boteco do Nelson”. Aliás, boteco, hoje, pra quem não bebe ou não está atualizado, virou estabelecimento de gente fina. Mas não vim falar disso, não hoje.

Claudias é uma forma de assumir aquilo que todos deviam assumir pelo menos uma vez na vida: o fato de todos nós sermos, ao mesmo tempo, únicos e múltiplos. Sermos um e dois e vários. Eu sou eu e sou outras, e você que está lendo também é você e é outros. Não entendeu? Vou explicar. Mas, antes, leia isso aqui.

* * *

Escrever faz parte da minha profissão, e é difícil, no dia a dia, sentir prazer em fazê-lo. Escrever, lá quando eu tinha 15 anos, era uma forma de me expressar (o que talvez fosse mais uma espécie de necessidade do que de prazer). Hoje, é uma forma de pagar as contas do mês. Cadê o prazer? Cadê o glamour do ofício de jornalista? Foram para o saco.

Dia desses, eu fui conhecer o tal Pampa Burger com amigas aqui em Porto Alegre, só mulheres, todas minhas ex-colegas de faculdade (um parêntese, caso interesse: eu sou bem mais um xis do Cavanhas que o Pampa Burger. Com a minha fome, seria necessário comer dois hamburgers daqueles pra me satisfazer, mas cada um custava R$ 14!!! Morri! Fecha parêntese).

Durante as comilanças, a Mônica, jornalista como eu, disse que não tem o menor remoso de dissuadir qualquer jovenzinho(a) que pergunte para ela “o que tu acha de eu fazer jornalismo?” Aliás, eu acho que cada adolescente que cogite a hipótese de ser jornalista pergunte a vários jornalistas como é a profissão, isso antes de prestarem vestibular. Vamos lá, adolescentes, perguntem, porque eu fiz o que deu na minha cabeça e estou aqui escrevendo no lugar mais nobre que me permitiram. (#Mimimi. Jornalistas são uma classe mal humorada, sem dinheiro e estressada. Aos poucos, neste blog, você vai compreender que isso é crônico e não só eu sou assim).

Enfim, esse post era só pra dizer que eu estou de volta. Eu e todas as Cláudias que existem dentro de mim (amáveis, detestáveis, mal humoradas, ingênuas, chatas, apaixonadas e, principalmente, instáveis). Todas em busca de resgatar, quem sabe, o prazer de escrever. Vocês que me aguentem.

Mar doce

(Depois de quase dois anos, resolvi colocar meus vídeos aqui no blog. Tem muita coisa empoeirada aqui clamando para sair da gaveta. A maior parte do material é home-made, mas, hoje em dia, o que não é? Abaixo, um texto meu sobre o show do Bajofondo, publicado na época no clicRBS.)

Depois de se apresentar em capitais como São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, o Bajofondo veio encerrar a turnê no país em Porto Alegre, “ciudad muy hermosa”, como os integrantes gentilmente definiram. O show deste domingo*, que lotou o Teatro do Bourbon Country, trouxe o repertório do último disco do grupo uruguaio-argentino, Mar Dulce. Além disso, foi um reencontro entre a banda e os porto-alegrenses, já que os caras trouxeram este mesmo show à Capital no ano passado.

No entanto, pra quem não foi achando que o show era a repetição do apresentado em 2008, sinto lhe informar, mas você perdeu um baita show. A base, de fato, era a mesma – o disco Mar Dulce, lançado em 2007 – mas o som foi tão empolgante que não se podia descartar uma ou outra surpresa.

O Bajofondo entrou no palco com o violino solitário (e emocionante) de Javier Casalla (cujo belo momento registrei aí em cima). Depois, a batida eletrônica entra de vez com o DJ e guitarrista Juan Campodónico, que é também um dos criadores do grupo junto com Gustavo Santaolla. Fecham o octeto os músicos Luciano Supervielle, ao piano, teclados e scratch; Martín Ferrés, no bandoneon; Gabriel Casacuberta, no baixo acústico; Adrián Sosa na bateria e Verónica Loza, VJ responsável pelas imagens que interagem com o show no telão.

Grande parte das canções do show é dançante e, assim como o próprio grupo define, não traz só influências do tango. A milonga, conhecida dos gaúchos, aparece em algumas canções e traz à música uma mistura do tradicional com o moderno. E esta mistura dá muito certo com o Bajofondo.

Pausa para um momento intimista do show: um solo de bandoneon é executado. Depois, Santaolla relembra sua parceria com o brasileiro Walter Salles e interpreta uma das músicas que integra a trilha sonora do filme Diários de Motocicleta. A impecável execução rendeu muitos aplausos.

A série de músicas dançantes que seguiram até o fim do show não deixariam o público plenamente satisfeito se não houvesse a execução de P`a Bailar, tango eletrônico que popularizou o grupo depois de se tornar trilha de abertura da novela das oito A Favorita.

O show encerrou como no ano passado*: os músicos atraem algumas pessoas da pista até o palco e este fica cheio, como se fosse uma rave. O bis (sim, depois da rave no palco ainda teve bis) foi de arrepiar, tocaram La Cumparsita. Depois disso eu não lembro de mais nada. Acho que o meu pensamento ficou passeando por Buenos Aires…

*Publicado em 11 de maio de 2009, no blog Volume.