“Vade retro”

Pelo simples fato de não sermos capazes de compreender a lógica de algumas coisas – quem sabe por não aceitá-las também, justamente por isso – que nos encontramos navegando contra a corrente. “Vade retro”, assim estava escrito num dos muros de Paris, e, não por acaso, era justamente o que estávamos fazendo, como se isso fosse um movimento absolutamente natural. Mas era.

E então nós nos dávamos conta de que havia algo que nos mantinha plenamente deslocados do mundo: andávamos no sentido contrário. Éramos o antifluxo. Percorríamos a estrada na contramão. O sentido dito “errado”. E nossos pés eram tortos como os de um curupira.

Pausa. Um café. Compartilhamos despretensiosamente a nossa condição de curupiras. Outro café. Discutimos a amizade pura. Entre nós, ao menos, acreditamos que ela ainda exista. Abraços. Risos. Sorrisos. Pausa. Um gole de vinho e um cigarro. Vem, vamos andar pela noite, ver sua beleza e sentir seu calor. Vamos fazer qualquer coisa ou nada. Vamos apenas não ser prisioneiros de nós mesmos.

Resta descobrir como sobreviver à violência do fluxo. À lógica do fluxo dos não-curupiras. Escola de etiqueta. Auto-ajuda em 10 lições. Bulimia. Psicanálise. Manuais de como fazer sexo corretamente. Ração humana. Silicone. Assistencialismo.  Furto de rins. Celebridades instantâneas. Comida instantânea. Relacionamentos instantâneos. Sensacionalismo. Balas perdidas. Leitura dinâmica. Princípios corporativos. Botox. Índices de audiência. Sinergia. Pós-graduação em desvio de verbas para o estrangeiro. Demência aka entretenimento televisivo. Tendências para outono-inverno. Informação ágil, objetiva e imparcial. Plano fechado no homem-elefante. Pensamentos requentados e oferecidos em bandeja de aço-inox como se fossem especiarias. Meus miolos torrados. A geléia da minha consciência como sobremesa.

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5 pensamentos sobre ““Vade retro”

  1. Clau

    Sabe quando você le um texto e pensa ” que vontade de escrever um texto assim”.
    Me fisgou do início ao fim, devorando vírgulas. Depois me fez passar novamente pelo muro, queria mais do texto.Ele me deu.

    Texto generoso, texto de quem sabe enfeitiçar as palavras,

    Texto com assinatura. É Clau!

    beijos

  2. Pingback: Tweets that mention “Vade retro” « La même chose -- Topsy.com

  3. Oi oi Cláudia…

    “Meus miolos torrados. A geléia da minha consciência como sobremesa.”

    Uau! Que texto brilhante! Faço coro com a Sandrinha: queria tê-lo escrito!

    Parabéns, você captou com extrema sensibilidade esse mal-estar na sociedade contemporânea!

    Beijo

    Léo

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